RSL: Separando fato da ficção

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Artigo publicado na edição de janeiro da Revista Americana Parachutist

Original em inglês no link RSL: Separating fact from fiction

Provavelmente não existe uma peça tão incompreendida no paraquedismo quanto o RSL (Reserve Static Line). Se você quiser 10 diferentes opiniões sobre o porque você deve equipar ou não o seu container com um, simplesmente pergunte a 10 diferentes paraquedistas. Infelizmente, a maioria dos atletas se posiciona e toma sua decisão baseada em opiniões e cenários imaginários ao invés de fatos. Para separar o fato da ficção e tomar uma decisão baseada na informação em sobre porque usar um RSL, nós precisamos olhar um pouco da história e dos dados atuais.

O RSL é um dispositivo muito simples. Uma argola liberável ligada a um tirante principal (ou aos dois tirantes em alguns modelos), uma das pontas está conectada ao cabo de abertura do reserva. Os vários fabricantes usam diferentes materiais e designs para alcançar essa conexão. O resultado de cada design é o mesmo; Uma vez que o paraquedista desconecte o velame principal do container, o RSL imediatamente libera o reserva. Isso inicia a abertura do reserva antes mesmo do paraquedista puxar o punho no container. Mesmo assim, o atleta deve estar sempre preparado para puxar os dois punhos na ordem correta após uma pane no velame principal e somente considerar o RSL como um dispositivo substituto.

História

Salto de teste, o atleta faz uma desconexão intencional em um container equipado com o sistema Skyhook. Foto: Brian Buckland

Salto de teste, o atleta faz uma desconexão intencional em um container equipado com o sistema Skyhook. Foto: Brian Buckland

O RSL certamente não é uma tecnologia nova. De acordo com o “The Parachute Manual” (O Manual do Paraquedas) escrito por Dan Poynter, Perry Stevens desenvolveu o Sistema Stevens de desconexão (que hoje chamamos de RSL) no início dos anos 60 quando trabalhava para uma empresa de paraquedismo. A empresa incorporou o sistema em um container “piggyback”, o primeiro container com sistema para dois velames, onde o reserva ficava localizado abaixo do principal nas costas do paraquedista. Entretanto, só dez anos depois as fabricantes iriam adaptar o sistema para os containers usados por estudantes (e pela maioria dos paraquedistas) da época, onde o reserva ficava na frente do corpo.

Os fabricantes desenvolveram esse sistema primeiramente para simplificar o procedimento de emergência para estudantes, uma vez que o aluno desconectasse o principal, uma correia puxava o cabo que libera o reserva que ficava na barriga do paraquedista, o mesmo lançava um pilotinho que iniciava a abertura do velame reserva.

Essa correia foi largamente utilizada como um dispositivo adicional de segurança somente para estudantes, e muitos paraquedistas experientes escolheram não usá-la mesmo quando o design foi melhorado e todos os fabricantes adaptaram para os containers montado nas costas com sistema para dois velames, como os que temos atualmente. Mas a USPA (United States Parachute Association) começou a exigir o uso do RSL por estudantes até estarem aptos a saltos solos. (Uma vez que o aluno estiver graduado para o solo, um instrutor deve autorizar o mesmo a saltar sem o RSL).

Hoje em dia, além do RSL, os paraquedistas podem optar pelo sistema MARD (main-assisted-reserve-deployment), dispositivos como o SkyHook, que utiliza a liberação do velame principal para extrair a bolsa do reserva de dentro do container. O design desse sistema produz uma abertura do reserva ainda mais rápida que os RSLs padrões. Eles cresceram em popularidade na última década, e a maioria dos fabricantes  agora oferecem algum modelo de dispositivo MARD nos seus containers. Entretanto, mesmo com a melhoria dos últimos anos, muitos paraquedistas experientes ainda ignoram o uso de RSLs e MARDs, mesmo sabendo que atletas continuam morrendo por falhas no comando do reserva depois de desconectar.

Se enrolar no próprio velame

Passageiro e piloto tandem voam a uma certa distância do velame principal que foi desconectado. Abertura do reserva foi iniciada com auxílio do sistema RSL. Foto: Theresa Whitley

Passageiro e piloto tandem voam a uma certa distância do velame principal que foi desconectado. Abertura do reserva foi iniciada com auxílio do sistema RSL. Foto: Theresa Whitley

É difícil de dizer porque paraquedistas continuam tendo resistência a usar dispositivos RSLs e MARDs. Embora alguns atletas digam que o motivo da preocupação seja se enrolar no reserva por causa da abertura iniciada pelo RSL enquanto o paraquedista está em uma queda instável, as estatísticas certamente não dão suporte a esse argumento. Olhando para os dados dos EUA de 1999 até 2013:

–       14 paraquedistas sem RSL morreram depois de desconectar o velame principal e comandar manualmente o reserva muito baixo para inflar completamente.

–       Cinco paraquedistas sem RSL morreram depois de desconectar o velame principal por causa de uma pane e não comandaram o reserva.

–       Cinco paraquedistas sem RSL se enrolaram no próprio reserva, depois de desconectar o principal e comandar o reserva enquanto girava instável.

–        Um paraquedista morreu ao se enrolar com o reserva, mas não temos informações se o reserva foi comandado manualmente ou por RSL.

O RSL teria prevenido a maioria das 25 fatalidades listadas acima, embora pelo menos três desconexões tenham sido em baixa altitude, e mesmo que tivessem comandado o reserva imediatamente, ele não teria inflado a tempo para um pouso de sobrevivência. O nível de experiência desses 25 paraquedistas varia de 28 a 6.500 saltos.

Durante o mesmo período, quantos paraquedistas que estavam usando o RSL morreram depois de desconectar o velame principal e se enrolar no reserva? Quatro atletas,  e cada um deles tinha menos de 20 saltos. Entre os quatro, dois deles se enrolaram no velame principal antes mesmo de desconectar os punhos, o que aumentou ainda mais as chances de se enrolar no reserva.

Adicionalmente, existem dois incidentes relacionados ao RSL/MARD que são difíceis de categorizar, os dois envolvem tandems. Em um caso, piloto e passageiro morreram depois do piloto desconectar o principal que estava com uma pane, mas o velame ficou preso ao container devido a um RSL mal posicionado. O instrutor não comandou o reserva, e os dois caíram com o principal em espiral. No outro acidente, piloto e passageiro também morreram depois de uma abertura baixa do velame principal, o DAA disparou a abertura do reserva. Rapidamente o pilotinho do reserva foi lançado, um dos tirantes do principal já estava desconectado, quando a correia Collins (que fica entre os dois tirantes como parte do sistema MARD) puxou o cabo de desconexão de um lado enquanto o velame principal continuava preso pelo outro tirante. O piloto tandem liberou o tirante preso já em baixa altitude, e o dois caíram sem um reserva completamente inflado.

Investigações não foram capazes de determinar a sequência exata dos eventos com relação a liberação do tirante.

Olhando ainda mais atrás, as estatísticas de velames enrolados continuam consistentes. Um artigo de novembro de 2005 escrito na Revista Parachutist com o título “RSL: Um segundo olhar” já listava dados de 1990 a 2005. Naquele período, houveram 30 fatalidades envolvendo paraquedistas que desconectaram o principal mas falharam no comando do reserva a tempo, comparado com cinco atletas que morreram após se enrolarem no velame reserva depois de uma desconexão com auxílio do RSL.

Twists

Alguns atletas que usam velames de médio e alto wingload temem uma possível complicação causada pelo RSL ao desconectar o velame principal durante um twist nas linhas. Entretanto, as estatísticas também não dão suporte a esse medo: a USPA (United States Parachute Association) nunca documentou um caso de fatalidade atribuída a uma abertura imediata de um reserva depois de uma desconexão de um velame principal em giro causado por twist. Na verdade, desconectar um velame principal em giro seguido de uma abertura imediata do reserva pelo RSL ou MARD já provou funcionar muito bem, mesmo em velames pequenos de alta performance. Na maioria dos casos resulta em uma abertura rápida e limpa. E mesmo que alguns paraquedistas tenham tido um twist nas linhas do reserva, o velame voou estável, e o atleta foi capaz de desfazer o twist e pousar normalmente.

Atleta Bob Atkins que estava voando um PD Velocity 90, desconectou devivo a um twist nas linhas. Seu container estava equipado com o sistema Skyhook, que comandou o seu reserva, um PDR 113. Atkins disse que muito atletas não usam o RSL pois usam velames com alto wingload "eu era um deles". Mas ele comprou um equipamento novo equipado com Skyhook. Depois dessa pane ele disse "acho que todo mundo deveria usar skyhook, no momento em que meu braço estava estendido terminando de puxar o punho de desconexão meu reserva já estava totalmente inflado. Além do mais reservas são projetados para voar planos e estáveis. Eu não tive problema com meu reserva, o twist nas linhas se desfizeram sozinhos". Fotos: Bob Atkins

Atleta Bob Atkins que estava voando um PD Velocity 90, desconectou devido a um twist nas linhas. Seu container estava equipado com o sistema Skyhook, que comandou o seu reserva, um PDR 113. Atkins disse que muitos atletas não usam o RSL pois usam velames com alto wingload “eu era um deles”. Mas ele comprou um equipamento novo equipado com Skyhook. Depois dessa pane ele disse “acho que todo mundo deveria usar skyhook, no momento em que meu braço estava estendido terminando de puxar o punho de desconexão meu reserva já estava totalmente inflado. Além do mais reservas são projetados para voar plano e estável. Eu não tive problema com meu reserva, o twist nas linhas se desfez sozinho”. Fotos: Bob Atkins

Atletas sob um velame em giro podem na verdade ter uma grande necessidade de um RSL. Em uma pane com giro de alta velocidade, os paraquedistas frequentemente descobrem que o equipamento está distorcido devido a força causada pelo giro ao redor do velame. Os punhos de emergência podem não estar no mesmo local onde se tem costume. Além do mais, se não todos, pode ser difícil de olhar para os punhos antes de segurá-los e comandá-los, alguns só percebem durante um giro violento, que os punhos são difíceis de ver e de localizar com as mãos. Mais de uma vez, já foi observado atletas tateando à procura do punho durante os últimos segundos de queda-livre.

No artigo “RSL: Um segundo olhar”, Derek Thomas, então sócio da Sun Path, e Bill Booth, presidente da United Parachute Technologies, listaram várias razões porque paraquedistas – inclusive aqueles mais experientes e com velames de performance – devem considerar o uso de um RSL ou MARD:

–       Pane com giro violento pode causar um sangramento no cérebro, afetando a coordenação e habilidade de pensar, assim como deixar mais lento o tempo de reação.

–       Velames em giro perdem altitude muito rápido, usualmente 100 pés ou mais por volta em um wingload moderado, e várias centenas por volta em um alto wingload.

–       Em média, um paraquedista leva de seis a oito segundos do momento que ele decide iniciar o procedimento de emergência até o momento que ele realmente puxa o punho de desconexão, perdendo uma grande altitude.

–       Saltos de teste mostram que uma vez que o atleta desconecta o principal, ele leva em média seis segundos – ou aproximadamente 1.100 pés de altitude – para voltar a uma posição estável, com a barriga para baixo (isso quando é um salto de teste, e o atleta estava preparado para o reserva antes de saltar)

–       Localizar os punhos de desconexão e reserva durante um giro é muito difícil em uma situação real de emergência e quase impossível de simular no chão para treino.

Outras considerações

O RSL é uma boa ideia para todos os paraquedistas? Não necessariamente. Para um time de formação de TRV (Trabalho Relativo de Velame), se o atleta se enrolar em um velame, a prática padrão é desconectar e cair uma curta distância para separar do principal e do outro paraquedista e então comandar o reserva. Para atletas que não estão intencionalmente participando de uma formação de TRV e se envolvem em uma colisão de velames, desconectar o RSL pode também ser uma preocupação extra.

Alguns câmera flyers também se preocupam com o risco do velame se enrolar nos equipamentos de filmagem se o reserva for comandado através do RSL. Mas, as câmeras estão ficando cada vez menores e os designs dos capacetes tem melhorado, então essa preocupação é menor do que uma vez já foi. Desde 1999, quando esses dados começaram a ser reportados, a USPA não documentou nenhuma fatalidade de RSL ou MARD ter resultado no velame enrolado em uma câmera, embora tenham muitos registros de RSL e MARD terem comandado reservas sem nenhuma pane mesmo com paraquedistas utilizando capacetes com câmeras.

Alguns atletas se preocupam com o risco do tirante equipado com o RSL quebrar durante a abertura, isso poderia comandar o reserva enquanto o principal ainda está preso ao container criando uma verdadeira chance de os velames principal e reserva se enrolarem. Mas, os fabricantes dos tirantes tem melhorado os designs ao ponto que quase não se ouve mais falar de falhas como essas. Componentes desgastados ou montados erroneamente causaram alguns incidentes de falhas no sistema do tirante, nenhum resultou em fatalidade. Em alguns sistemas (incluindo todos os MARDs), libera-se os dois tirantes caso um deles quebre. O último incidente fatal que aconteceu com um velame enrolado após uma falha no tirante foi em 1997 (um tandem em que o piloto morreu e o passageiro ficou ferido após um pouso com os dois velames principal e reserva enrolados).

Alguns paraquedistas pensam erradamente que o DAA é um dispositivo que substitui o RSL. Embora os DAA tenham salvado alguns atletas comandando o reserva após a desconexão do principal, o paraquedista precisa estar alto suficiente para alcançar a velocidade de pelo menos 78mph (ou 125 km/h), depois de desconectar o principal. E também precisa restar altura suficiente para que o reserva infle completamente. RSL simplesmente oferece uma função diferente e pode ser um dispositivo de segurança valioso, caso você use ou não um DAA. O importante é ter certeza que você tem um entendimento completo do seu equipamento, então você pode tomar uma decisão sobre suas limitações e uso.

RSLs tem trabalhado silenciosamente por décadas, iniciando incontáveis aberturas de reservas bem sucedidas. Se você decidir usar um ou não, tenha certeza que está fazendo uma decisão baseada em fatos e dados.


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