Voltando a saltar após uma fratura

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Mais cedo ou mais tarde, todo paraquedista que se preze sofrerá pelo menos um arranhãozinho saltando. Afinal de contas, estamos falando de um esporte radical que envolve riscos, como tudo na vida! E por mais que tentemos minimizar ao máximo as chances de que um acidente aconteça, nunca conseguiremos eliminar completamente o perigo.

 

Primeiro salto com o macacão novo, minutos antes de um pouso “forçado”

Daí que em 1 dezembro de 2012, lá fui eu fazer um saltinho de BBF para estrear o meu lindo macacão novo <3: eu esbanjando inexperiência + vento invertido + lançamento longe da área + nuvem na minha altura de comando + um pé de buriti no meio do caminho (isso mesmo, uma PALMEIRA enorme no meio do caminho, rs) = perna esquerda e bacia quebradas no meu ainda vigésimo primeiro salto e macacão novinho picotado na emergência do hospital =/.

Lembro que após ter finalmente conseguido sair da nuvem e identificar que estava mesmo bem longe da área e em cima de uma área residencial (a área de saltos de Manaus fica bem próxima a cidade), decidi escolher um local alternativo para pouso antes de chegar aos 3 mil pés, conforme orientações recebidas ainda no meu curso de AFF. Essa foi a minha escolha, já que a boa área de escape que consegui identificar também me pareceu estar muito longe e não quis correr o risco de ficar pelo meio do caminho.

Optei então por um terreno razoavelmente amplo, tentei navegar evitando uma construção que tinha ao fundo. Já era quase a hora de fazer o flare quando o vento me trouxe de lado e, lá estava eu de cara com o buriti a não poucos quilômetros por hora. Então, em fração de segundos, pensei:

  1. Se abraço a árvore igual a um desenho animado, morro (será?)
  2. Se empurro a árvore com o pé, talvez quebre o mesmo ou o joelho e acabe caindo de costas no chão
  3. Protejo cabeça e tórax oferecendo a parte de traz da coxa e caio de lado no chão

    Macacão usado apenas uma vez, cortado no hospital

    Macacão usado apenas uma vez, cortado no hospital

Felizmente escolhi a opção 3 e cá estou eu viva com alguns pinos e uma haste de titânio de 30 cm dentro do fêmur esquerdo. Só que quando se tem apenas 21 saltos e acontece uma coisa dessas, a experiência não é algo que conta ao seu favor e então há muito mais do que uma cirurgia e alguns meses de fisioterapia pra enfrentar: tem também o próprio medo de voltar a saltar e as intermináveis ladainhas e olhares de desaprovação de quem não entende o que é paraquedismo e nem por que você gosta tanto de se jogar de um avião.

Nessas horas, meu amigo, só resta respirar fundo, seguir à risca e com garra cada passo da recuperação (porque dói!) e encarar uma coisa de cada vez, sendo uma delas: “seja humilde e aprenda com os seus próprios erros” pois, independentemente do que acontecer, você é o principal responsável pelo seu salto.

Hoje olho para trás e vejo o tanto que aprendi com o episódio:

  • Penso em segurança e assumo atitudes seguras muito mais do que antigamente
  • Li o Skydiver’s Information Manual (SIM) inteirinho (você pode baixar aqui)
  • Simplesmente não subo ou não saio do avião sem condições ideais ou que me façam sentir segura
  • Procurei aprender mais sobre PS 😉
  • Ouço atentamente os conselhos que recebo, principalmente dos mais experientes
  • Tenho mais certeza de que, nesse esporte, nunca se deixa de ser aprendiz
  • Confirmei novamente que amo saltar de paraquedas, pois a volta foi inesquecível (detalhes sobre isso mais à frente)!

O caminho da recuperação

Não vou mentir e dizer que é fácil o caminho até o próximo salto, porque simplesmente não é! Principalmente se você tiver a má sorte de quebrar o maior osso do corpo como eu. O primeiro passo é a cirurgia. A minha durou 3h, nas quais fiquei totalmente acordada com anestesia apenas da cintura pra baixo. No procedimento foram colocados uma haste de titânio de 30 cm e dois pinos para fixar tudo.

Fratura cominutiva com afastamento ósseo do fêmur proximal esquerdo

Saindo do hospital, quanto mais rápido começar a fisioterapia, melhor! A perna fica inchada pela fratura e pelo procedimento cirúrgico em si que não é nada gentil. O edema precisa ser drenado e os músculos necessitam rapidamente voltar a trabalhar para recuperarem a força. E isso só se faz movimentando a perna com a ajuda e orientação de um fisioterapeuta. Esse processo durou um pouco mais que 3 meses e cada conquista precisa ser celebrada!

  • A primeira vez que você consegue novamente flexionar a perna até 90 graus
  • Quando consegue ficar em pé com a ajuda de um andador
  • A volta da força, ainda que tímida (eu perdi cerca de 20% da força muscular da perna esquerda, o que significa que, no início, não conseguia nem sequer flexioná-la deitada na cama)
Foto 1: Na cadeira de rodas. Foto 2: Usando o andador. Foto 3: Usando muletas

Foto 1: Na cadeira de rodas. Foto 2: Usando o andador. Foto 3: Usando muletas

Depois fui encaminhada para o pilates ainda sob a orientação de um fisioterapeuta. Aí aos poucos você larga o andador, vai pra muleta e daqui a pouco tá mancando, ops! andando (rs) só com os próprios pés. A minha fisio foi ótima! Me acompanhou desde que saí do hospital e não me permitiu moleza, o que acelerou o meu processo de recuperação e a minha volta à academia apenas sete meses e meio depois da cirurgia.

Graças a Deus tudo foi um sucesso e, apesar do médico ter me advertido severamente que eu corria grande risco de sofrer encurtamento da perna esquerda, hoje ando normalmente, sentindo dor apenas de vez em quando por não manter a disciplina nos alongamentos e nos exercícios (eu admito!).

De novo no ar!

Assim como falei lá em cima, você terá muito mais do que uma cirurgia e alguns meses de fisioterapia antes de voltar a saltar. Ainda há aquelas “vozes” que todo paraquedista conhece muito bem:  “você é doido se voltar a fazer uma coisa dessas”, “mas e se você se quebrar novamente?”, “você não tem medo?”, “é muita doidice”… blá, blá, blá, blá… e por aí vai.

É ÓBVIO que rola um pouco de medo mas, quem nunca? Somos paraquedistas, oras! Pelo menos aquele frio na barriga já sentimos naqueles primeiros saltos! Então tudo é uma questão de preparar o psicológico, treinar tudo outra vez e trabalhar as próprias inseguranças, de preferência com a ajuda de instrutores. Foi o que eu fiz.

Uma vez liberada para qualquer atividade física e sabendo que estava pronta, procurei uma das minhas escolas (na época saltava em Manaus e Boituva) sem comunicar ninguém. Isso mesmo, ninguém! (estou falando de família, amigos e inclusive namorado). Essa escolha é pessoal, claro, e no meu caso o motivo foi me permitir a proeza de me concentrar sozinha e afastar as benditas “vozes”, por mais bem intencionadas que elas pudessem ser.

Primeiro salto após acidente

 

E deu certo!!! Gritei em queda livre pela primeira vez na vida e garanto que o salto foi mais extraordinário que o primeiro!

Ah! Já ia esquecendo! E o macacão novinho picotado no hospital? Mandei fazer outro igualzinho! … =D

Com a instrutora Beatriz Ohno em Boituva

Com a instrutora Beatriz Ohno em Boituva

Mariana Medina é jornalista colaboradora do SkydiveBR.com, atualmente mora em Belo Horizonte e salta nas áreas de Boituva e Manaus.


One thought on “Voltando a saltar após uma fratura

  1. Oi, Mariana! Gostei muito da sua matéria de recuperação e superação! Parabéns pela forma descontraída que você relatou esse problema. Isso deixa muita esperança para pessoas que também tiveram uma fratura cominutiva no fêmur ter o mesmo sucesso como você teve.
    Infelizmente, só encontramos relatos tristes pela internet, mas o seu é totalmente o oposto. Muito legal isso!
    Você poderia dizer quanto tempo levou para o calo ósseo ser visualizado nas radiografias e por quanto tempo você usou muletas?
    Você também poderia dizer se você pretende remover e pode remover a haste depois da calcificação total do fêmur?
    Obrigado!

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