Limpe suas Curvas

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Original em inglês: Clean up your turns

Texto: Brian Germain

Tradução para o Português: Edgard Magalhães

“Coordenação da curva” é um tema que, até recentemente, não tem sido muito aplicado à aerodinâmica dos paraquedas pressurizáveis (ram-air). Em termos simples, refere-se a quanto um veículo em voo está alinhado ao vento relativo, durante uma curva. Em outras palavras, refere-se ao grau de alinhamento de uma aeronave em curva em relação vento relativo, considerando seu eixo de rotação.

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Uma “curva limpa”, do ponto de vista aerodinâmico, é aquela que durante toda seu percurso mantém o nariz da aeronave apontado para o vento relativo. Ao voar aviões, isso impede que os passageiros derramem suas bebidas, além de economizar combustível e preservar a velocidade. No paraquedas, no entanto, este aspecto das curvas foi em grande parte ignorado. Sendo os paraquedas cada vez mais rápidos, chegou a hora de começar a pensar neste aspecto de nosso voo de velame por várias razões muito importantes.

A primeira tem a ver com a habilidade do piloto para estabilizar a qualquer momento durante a curva. Vamos encarar isso, às vezes o chão vem para cima de nós. Voar aerodinamicamente uma curva sólida aumenta a probabilidade de que você seja capaz de converter, em tempo hábil, sua velocidade em sustentação. Se você está deslizando lateralmente pelo céu, porque você está simplesmente acionando o batoque para baixo, você não está preparado para viver nesse mundo. O vento relativo está pulando após bater em seu paraquedas, criando um fluxo turbulento, enquanto a carga das linhas de suspensão está sendo deslocada para um dos lados do seu velame. Quando você tenta escapar de uma curva descoordenada, haverá uma demora antes que o paraquedas comece a mudar de direção e estabilizar. Se o chão chegar a você antes que isso aconteça, você pode se ver assistindo o Jô Soares em sua cama de hospital por algum tempo (não que eu tenha algo contra Jô Soares).

A segunda razão para fazer uma curva coordenada tem a ver com a estabilidade geral do paraquedas. Em uma curva descoordenada, o nariz de seu paraquedas não fica apontado para o vento relativo que se aproxima. Ele desliza lateralmente. Isto significa que a pressão na sua asa está sendo prejudicada, além de que a ponta da asa do lado de fora da curva fica exposta ao vento relativo. Se você encontrar turbulência durante este tipo de curva “desleixada”, você terá muito mais probabilidade de ter um colapso desse lado do paraquedas. Em outras palavras, se você está virando à direita, sua esquerda estará mais propensa a dobrar para baixo. Curiosamente, quando uma curva agressiva e descoordenada com o batoque é iniciada, o oposto tende a acontecer. Quando o batoque direito é solto, o lado direito da asa sobe para a frente conforme o arrasto é liberado e esse lado é apresentado ao vento relativo, abrindo a porta para um colapso no lado direito do velame. Em qualquer caso, isso pode resultar em muito tempo para assistir televisão.

Um problema fundamental …

Há um problema fundamental com a maneira pela qual a maioria de nós foi ensinada a fazer curvas com nossos paraquedas. Eles disseram: “se você quiser virar à direita, puxe para baixo o batoque direito.” Ao puxar o batoque aumenta-se o arrasto no lado direito do paraquedas, levando para trás a ponta da asa. O início da curva é pura energia de “rotação”. É como o piloto de um avião pisar no pedal do leme. Por ser uma ação leve, acionar os batoques funciona como um comando incompleto. Precisamos ainda de um pouco de energia de “giro”.

O arreio (harness) é mais do que uma maneira de amarrar o atleta ao paraquedas. É também uma forma de manipular o velame. Se a perna direita aponta para a terra e o quadril esquerdo para o alto, o paraquedas vai virar para a direita. É verdade que os paraquedas menores vão responder a esses comandos mais rapidamente do que os maiores, e que velames elípticos possuem uma resposta mais rápida. Todavia, os comandos com o arreio funcionarão em todos os paraquedas. Mais importante ainda, quando feito no início de uma curva, direcionar com o arreio converte uma curva de batoque em uma manobra coordenada. Isso é verdade se você está sob um velame Lotus 190 ou um Samurai 95.

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Em um avião, todas as curvas começam ao se iniciar o giro por meio dos ailerons (girando no eixo), seguido do acionamento do leme para coordenar a curva. Os aviões antigos tinham um fio na carenagem para mostrar a direção do fluxo de vento, enquanto os mais novos têm indicadores de deslizamento no painel de instrumentos. Se pelo menos tivéssemos essa informação enquanto voamos nossos velames… Ah, mas…

Arrastando atrás de sua asa estão todos os dados de controle do eixo de rotação que você vai precisar. Ele é chamado de pilotinho. Se você estiver fazendo uma curva coordenada, seu bridle permanecerá paralelo às células de seu velame durante toda a curva. Se em algum momento ele ficar folgado, se ficar serpenteando ou derivar para um dos lados, você não está fazendo uma curva limpa. Você não está manobrando sua asa através do céu; você está derrapando fora de controle. O vento relativo não está seguindo os sulcos de seu velame; ele está pulando sobre o relevo, caindo no caos.

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Tente isto em seu próximo salto. Olhe para seu velame enquanto estiver voando em linha reta e simplesmente baixe um dos batoques para a posição de meio freio. Imediatamente você verá o que eu estou falando sobre como o pilotinho pende para um lado. Em seguida, incline-se em seu arreio, esticando um tirante de perna de forma a dar um comando direto de giro no eixo. O giro poderá começar ou não, dependendo do velame. Mas isso não importa. Em seguida, mantendo o comando no tirante de perna, puxe o freio na mesma direção do comando do tirante de perna. Você verá que o arrasto do pilotinho se fará reto para trás, mesmo em uma curva acentuada.

Depois de ter experimentado de fato a sua primeira curva coordenada de paraquedas, é hora de desenvolver novos hábitos. E isso leva tempo. Acho que quando se aprende uma nova habilidade como esta, é melhor ter uma maneira simples de lembrar o processo. Nesse caso, tente usar a seguinte sequência para cada curva que você faz: 1) OLHE, 2) INCLINE-SE e 3) GIRE. Esta é uma forma de memorizar que me foi ensinada por um grande instrutor de parapente e paraquedista, JC Brown. Ao invés de impensadamente acionar o freio, olhe para onde você está prestes de ir, incline-se no arreio para iniciar o giro, e, finalmente, puxe o freio para ir a fundo na manobra.

Quando você lida com este tipo de curva, você pensa que o paraquedas simplesmente sente-se melhor; que você está mais no controle do velame. Você também vai descobrir que pode acionar os dois freios durante a curva a fim de reduzir a sua taxa de descida, ou mesmo estabilizar completamente. Ainda que seja necessária a prática para aperfeiçoar a técnica, todo paraquedas tem a capacidade de mudar de uma curva descendente para uma curva em nível, e daí para um pouso suave e bonito. Se você sabe como manobrar para sair de uma curva baixa, nunca haverá um motivo para se enfiar no chão, nunca.

Apesar de que muitos paraquedistas ainda pensam em seu paraquedas simplesmente como um meio para voltar ao chão depois de um salto, aprender a usar o equipamento da forma como ele foi concebido para ser usado irá aumentar as chances de que você volte ao chão em segurança. A gravidade age igualmente sobre aqueles que amam voo de velame como sobre aqueles que o abominam.

Depois de 20 anos ensinando pilotagem de velames, eu aprendi isso: você só pode se tornar grande em algo que você ama. Quanto mais você aprender, mais você irá explorar. Quanto mais você explorar, mais você vai se sentir no controle. Quanto mais você se sentir no controle, mais você vai gostar. E isso, senhoras e senhores, é o que faz sentido.

BSG

Brian Germain é designer de paraquedas, piloto de testes, instrutor de voo avançado em velame e escritor. O livro de Brian “The Parachute and its Pilot” tornou-se a fonte mundial de informação sobre pilotagem de velames e está disponível em uma loja de equipamentos perto de você, ou no site de Brian: www.BigAirSportZ.com

N.T.: Roll – rolamento, giro ou jogo (MAR). Eixo longitudinal
N.T.: Yaw – rotação, torção ou guinada (MAR). Eixo vertical
N.T.: Pitch – inclinação ou arfagem. Eixo lateral ou transversal


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